Colóquio Simondon XIV — BRASIL/CHILE – MÚLTIPLAS FILOSOFIAS/REDES ABERTAS DE CONHECIMENTO

DATA
11 a 15 de Maio de 2026
LOCAL
Casa de Rui Barbosa — Rua São Clemente, 134 — Botafogo, Rio de Janeiro
EVENTO ABERTO AO PÚBLICO
INSCRIÇÕES educacao@gilbertsimondon.org com o assunto INSCRIÇÃO SIMONDON
Certificado para 50% da frequência
ACESSE.http://www.gilbertsimondon.org/
APRESENTAÇÃO
A recepção da obra de Simondon na América Latina é antiga e está, pode-se dizer, em boa medida consolidada. Vale notar, em particular, a diversidade de abordagens dessa filosofia, dessa tecnologia, no continente, que marca uma singular multiplicidade que se amplifica indefinidamente. Menos evidente, porém, é a explicação para essa ressonância entre um filósofo francês e o pensamento de um território composto de dezenas de países e centenas de milhões de habitantes. O que tem a comunicar esse filósofo francês com as redes de pensamento da América Latina?
Nesses países, Simondon é convocado por um universo heterogêneo de pesquisadoras e inventoras, em um arco que vai de artistas, ativistas, arqueólogas, cientistas sociais e psicólogas até filósofas. Buscamos propostas de apresentação em todas essas áreas, a fim de estabelecer diálogos capazes de reticular as potências da informação distribuída por tantos povos singulares, em um momento de crises sobrepostas e interrogações urgentes.
O evento resulta de uma parceria com pesquisadores do Chile, celebrando os 10 anos do primeiro encontro sobre Simondon no país. Será uma oportunidade para avaliarmos como ressoa o pensamento de Simondon em correntes contemporâneas, como, por exemplo, os estudos em torno da cosmotécnica, da difração e da decolonialidade. Há espaço para seus conceitos nas reflexões em torno de um transindividual que ultrapassa o Ocidente e até mesmo a categoria do humano? A filosofia da individuação pode contribuir para uma rede aberta de conhecimento cujos nós se espalham pela diversidade de experiências sociopolíticas e estético-afetivas? As contribuições de Simondon em torno de uma ética do devir, de uma educação para a invenção, de uma estética da monstruosidade, da máquina aberta, ainda têm lugar no mundo da colonização de dados, das sociedades de controle, da personalização algorítmica?
PROGRAMAÇÃO COMPLETA
(em imagens)











ORGANIZAÇÃO
Faculdade de Educação – UFRJ: https://www.educacao.ufrj.br/
ReLES – Red Latinoamericana de Estudios Simondonianos: https://reles.gilbertsimondon.org
lavits – Rede latino-americana de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade (ECO/UFRJ) https://lavits.org/
GrEGS – Grupo de Estudos Gilbert Simondon (Unicamp)
APOIO
FAPERJ: https://faperj.br/
FAPESP: https://fapesp.br/
Fundação Casa de Rui Barbosa: http://antigo.casaruibarbosa.gov.br/
PROGRAMAÇÃO COMPLETA
(em texto)
* participação online
>>>11/05 SEGUNDA-FEIRA
10h — PALESTRA DE ABERTURA
Pablo Manolo Rodríguez (Conicet-UBA)*
O ciclo simondoniano da imagem hoje
Mediação: Fernanda Bruno (UFRJ)
14h — MESA 2 – PSICOSSOCIAL E TRANSINDIVIDUAL
Danilo Melo (UFF)
Simondon e a psicologia da Gestalt: por uma axiomática metaestável nos estudos da percepção
Marcela Gil (U. de Antioquia)*
Norma, normalidade e individuação
Amnéris Maroni (Unicamp)
Um diálogo inusitado entre C. G. Jung e G. Simondon
Mediação: Bernardo Oliveira (UFRJ)
16h — MESA 3 – AXIONTOLOGIA E ALAGMÁTICA
María de Lourdes Solís Plancarte (ENP-UNAM)
A alagmática e a mecanologia, de humanos, plantas e máquinas*
Zeto Borquez (U. Adolfo Ibáñez)*
Simondon: tempo técnico e primitivismo estratégico
Ádamo Veiga (PUC/RJ)
Pensar Gaia a partir de Simondon
Mediação: Thiago Novaes (Mapp/UFC)
>>>12/05 TERÇA-FEIRA
10h — MESA 1 — TECNOESTÉTICA E IMAGINAÇÃO
Aline Couri (UFRJ)
Instantes tecnoestéticos: circuit bending e o plan de séparation (split3D) de Jean-Luc Godard em Adieu au Langage
Renzo Filinich Orozco (University of the Witwatersrand)*
Para além da mirada humana: materialidade e desantropologização da visão
Joaquin Andres Zerene Harcha (U. Diego Portales)*
Sobre a imaginação técnica: reflexões em torno das relações entre imaginação, técnica e estética no pensamento de Gilbert Simondon
Mediação: Bernardo Oliveira (UFRJ)
14h — MESA 2 – MÍDIA E MEDIAÇÃO
Diego Gómez-Venegas (Berlim)*
Poder, conhecimento e estética: três leituras incompletas da obra de Simondon
Andréia Machado Oliveira (UFSM)*
Arte, tecnologia e filosofia: uma noção de imagens biotecnológicas em Gilbert Simondon
Vinícius Portella (Rio de Janeiro)
Transdução e influência
Mediação: Bárbara Szaniecki (UERJ) (?)
16h — MESA 3 – CULTURA E HUMANISMO
Sylvio Gadelha (UFC)
Uma psicossociologia em meio à contracultura e à tecnocultura
Andrés Gómez Seguel (U. de Chile)*
Técnica, catástrofe e desajuste dos conjuntos técnicos na América Latina: uma aproximação desde Gilbert Simondon
Rodrigo Andres Gonzalez Acevedo (U. Adolfo Ibáñez)*
Um humanismo cibernético? Uma reflexão sócio-filosófica sobre o humano em Gilbert Simondon
Mediação: Pedro P. Ferreira (Unicamp)
>>>13/05 QUARTA-FEIRA
10h — MESA 1 – ARQUEOLOGIA E ETNOGRAFIA
Marcos Paulo Ramos (PUC-Goiás)*
Arqueologia simondoniana: ontogênese, tecnicidade e a teoria das fases da cultura para abordar o registro lítico
Carlos Xavier de Azevedo Netto (UFPB)*
A semiótica da relação entre o técnico e o estético na perspectiva arqueológica
Carlos Emanuel Sautchuk (UNB)*
Por uma abordagem etnográfica da tecnicidade: inspirações simondonianas
Mediação: Thiago Novaes (Mapp/UFC)
14h — MESA 2 — INVENÇÃO E INDIVIDUAÇÃO TÉCNICA
Juan Manuel Heredia (UBA)*
A noção de “conjuntos técnicos” em Simondon
Laura Francis (USP)
O ciclo genético das imagens: imaginação e invenção em Gilbert Simondon
Lucas Paolo Sanches Vilalta (USP)
Retroalimentação de IAs: os processos de datificação, algoritmização e plataformização a partir de modelos cibernéticos
Mediação: Diego Viana (USP)
16h — MESA 3 – MODULAÇÃO E ALIENAÇÃO
Andrés Maximiliano Tello Soto (U. de Playa Ancha)*
Os múltiplos modos de existência da IA
Glaucia Figueiredo (Unicamp)
Modelos educativos e modulações pedagógicas: contribuições do pensamento de Gilbert Simondon para pensar a pedagogia contemporânea
Dusan Kotoras Straub (U. Diego Portales)*
O fantasma e a máquina: por uma redefinição operativa do conceito de alienação
Mediação: Bernardo Oliveira (UFRJ)
>>>14/05 QUINTA-FEIRA
10h — MESA 1 – COSMOTÉCNICA E MEIO ASSOCIADO
Thiago Novaes (Mapp/UFC)
Plantas maestras: redescobrindo a tecnicidade e a sacralidade através dos objetos abertos simondonianos
Jader Gama (UFPA)
A emergência de uma cosmotécnica amazônida: continuidade técnica e rearticulações situadas a partir da filosofia da técnica de Simondon
Lori Regattieri (Green Screen Coalition)
Observações simondonianas sobre o império da IA: individuação técnica, meio associado e crise ecológica
Mediação: Bia Martins (UFRJ)
14h — MESA 2 – ARTE E VALOR
Bernardo Oliveira (UFRJ)
O dinamismo genético da imagem cinematográfica: algumas considerações acerca de Scenes from under childhood (1967-70), de Stan Brakhage
Gonzalo S. Aguirre (UBA)*
Tropicalia lixo jurídico: trovadores e glosadores, oralidade e escrita desde uma perspectiva tecnoestética Simondoniana
Claudio Celis Bueno (U. van Amsterdam)*
Simondon, Marx, e a pergunta pela teoria do valor
Mediação: Laura Francis (USP)
16h — MESA 3 – FORMAÇÃO E INFORMAÇÃO
Thiago Ranniery (UFRJ)
Toxinas pervertidas: os dilemas sexuais do Plasticoceno
Daniela Alves Braga (UECE)
Da técnica à formação integral: o pensamento de Gilbert Simondon e o combate à alienação técnica como fundamento da inclusão digital
Stefano Schiavetto (E.E. Otoniel Mota)*
A privatização da redução da margem de indeterminação como condição e recurso do capitalismo de plataformas na educação básica globalizada
Mediação: Gláucia Figueiredo (Unicamp)
>>>15/05 SEXTA-FEIRA
10h — MESA 1 – ONTOGÊNESE E POLÍTICA
Diego Viana (USP)
Notas sobre uma inclinação contemporânea à cosmologia e o possível papel de Simondon
Valeria Campos Salvaterra (PUC-Valparaiso)*
Simondon transcendental
Cécile Malaspina (School of Materialist Research)*
Comum singular: a individuação como a única impressão digital de sistemas em evolução
Mediação: Thiago Novaes (Mapp/UFC)
14h — MESA 2 – CIBERNÉTICA E DIALÉTICA
Pedro P. Ferreira (Unicamp)*
Leituras chilenas de Simondon: resultados preliminares de uma investigação
Helano Castro (UFC)
Da cibernética à inteligência artificial: uma abordagem usando o conceito de informação de Simondon
Luis Gonzalez Mérida (Universitat Autònoma de Barcelona)*
A dialética de Simondon
Mediação: Gustavo Deister (PUC-Rio)
16h — MESA 3 – AUTOMATISMO OU FUTURO
Jim Schrub (Univ. Nanterre)
O professor, a instituição e o instrumento: sobre os personagens da educação integral simondoniana
Hermano Callou (UFRJ)
Três regimes de automatismo
Jorge William Montoya Santamaría (U. Nacional de Colombia)*
Animalidade e humanidade em Gilbert Simondon
Mediação: Daniela Braga (UECE)
RESUMOS
Ádamo Veiga (PUC/RJ)
Pensar Gaia a partir de Simondon
O presente trabalho pretende analisar a hipótese de Gaia de James Lovelock sob a ótica do problema da individuação em Gilbert Simondon. A hipótese de Gaia, que postula uma interação ativa entre todas as esferas do planeta e a vida, põe em xeque a perspectiva moderna sobre a natureza — que a coloca como passiva, inerte, mero palco para a conquista prometeica do gênero humano. A emergência de um novo regime climático é prova de que a Terra age sob a vida e vice-versa, não sendo mais mero palco, mas, igualmente, agente. O que pretenderemos será, a partir de Lovelock e da análise de Latour sob Gaia, mostrar como o conceito de individuação em Simondon se adequa a hipótese de Lovelock de tal modo a mostrar como o seu conceito de indivíduo e vida nos permitem pensar Gaia como um indivíduo vivente.
Aline Couri (UFRJ)
Instantes tecnoestéticos: circuit bending e o plan de séparation (split3D) de Jean-Luc Godard em Adieu au Langage
Envolvida em pesquisas sobre arte, mídias e tecnologias, fui inspirada, a partir da obra de Gilbert Simondon, a identificar instantes tecnoestéticos no meu cotidiano e em práticas artísticas. O presente trabalho apresenta e discute dois deles: o circuit bending e o trecho do filme Adieu au Langage (2014) de Jean-Luc Godard conhecido como plan de séparation (popularmente mais conhecido como um split3D).
O circuit bending é um processo criativo de modificação de circuitos eletrônicos de baixa voltagem, especialmente em dispositivos sonoros simples (brinquedos, teclados, sintetizadores de baixo custo), para alterar e expandir seu comportamento sonoro além das funções originais. Trata-se de desmontar a máquina, explorar conexões improvisadas e adicionar controles (como interruptores e potenciômetros) que possibilitam novos timbres, ruídos e respostas imprevisíveis.
Adieu au Langage, um filme 3D experimental escrito e realizado por Jean-Luc Godard, tem na parceria como diretor e fotógrafo Fabrice Aragno a criação de uma das experiências mais radicais da linguagem do cinema contemporâneo, baseada numa nova individuação do próprio objeto técnico “câmera 3D”. Dentro da narrativa, em determinado momento de conflito entre um casal, a imagem 3D se “desencontra”, através da ruptura da fusão binocular.
Ainda que bem distintos em termos de concretização e de linguagem, esses dois instantes são oportunidades de debater, baseados na obra de Simondon, interações entre poéticas humanas e técnicas, onde o erro, o acaso e os funcionamentos desviantes dos objetos técnicos se tornam linguagem artística.
Amnéris Maroni (Unicamp)
Um diálogo inusitado entre C. G. Jung e G. Simondon
Descrição da operação de individuação no consultório psi.
Andréia Machado Oliveira (UFSM)
Arte, tecnologia e filosofia: uma noção de imagens biotecnológicas em Gilbert Simondon
Em nossa atual conjuntura somos cada vez mais moldados por imagens algorítmicas, fazendo-se necessário um exame crítico e rigoroso da complexa conexão entre as imagens tecnológicas que produzimos e consumimos, e as ações, decisões e rotinas que adotamos. Essas imagens transcendem meras representações, haja vista que exercem influência não apenas em nossas estruturas orgânicas e psicológicas, mas também em nossos contextos sociais, estilos de vida e comportamentos. Assim, na perspectiva de abordarmos imagens psicossomáticas e psicossociais, concebemos a imagem de um modo biotecnológico, tendo como referência a Teoria da Imagem de Gilbert Simondon. A partir de uma abordagem ontogenética, Simondon situa a imagem como uma realidade intermediária entre o indivíduo e o meio, associando organismo, meio e objeto. Particularmente, examinamos a gênese da imagem através de sua natureza cíclica e biotecnológica, compreendendo causalidades recursivas entre aspectos biológicos, sensoriais, perceptivos e cognitivos, afetivos e simbólicos até a invenção de imagens-objetos que são compartilhadas no coletivo através dos sistemas generativos de rede computacionais.
Andrés Gómez Seguel (U. de Chile)
Técnica, catástrofe e desajuste dos conjuntos técnicos na América Latina: uma aproximação desde Gilbert Simondon
Este artigo propõe uma interpretação de certas experiências tecnológicas latino-americanas à luz da filosofia de Gilbert Simondon. Em particular, concentra-se na incorporação de artefatos, esquemas técnicos e sistemas tecnológicos que, quando introduzidos em contextos sociais, políticos e territoriais específicos, não conseguem atingir a coerência funcional esperada e produzem efeitos imprevistos, contraditórios ou mesmo catastróficos. Em vez de interpretar esses processos como meras falhas de adoção ou déficits de modernização, sugere-se abordá-los a partir da perspectiva de Simondon sobre a individuação técnica e a relação entre o objeto técnico, seu ambiente associado e a cultura. Com base na ideia de uma “lacuna mágico-primitiva” ou uma “ruptura” na relação original entre a humanidade e o mundo, pode-se argumentar que a tecnologia moderna não apenas organiza operações materiais, mas também desejos, expectativas e imaginários sobre o funcionamento dos objetos. Nessa perspectiva, a catástrofe refere-se não apenas a uma falha ou má implementação, mas a uma ruptura na correspondência entre forma, função e a realização do objeto técnico em um ambiente que não consegue se constituir como um meio associado. O que falha, portanto, não é meramente uma máquina ou um dispositivo, mas uma relação específica entre cultura e técnica. O caso latino-americano é particularmente sugestivo para esta discussão, pois ali a tecnologia frequentemente se apresenta na forma de esquemas importados, projetados como soluções gerais em territórios e histórias heterogêneas. Nessas condições, inúmeros objetos e sistemas técnicos permanecem suspensos em estados de abstração, incapazes de se integrar plenamente às dinâmicas locais de individuação. Assim, seus efeitos oscilam entre a promessa de salvação em contextos de crise e a produção de profundos desajustes, incluindo danos ecológicos, contradições socioprodutivas ou formas de absurdo técnico.
Andrés Maximiliano Tello Soto (U. de Playa Ancha)
Os múltiplos modos de existência da IA
O boom corporativo da inteligência artificial desencadeado na última década deve ser analisado a partir de perspectivas que vão além da simples reprodução dos discursos publicitários, corporativos e governamentais sobre o tema. Esses discursos tendem a homogeneizar e universalizar as representações culturais da IA, transformando o que é meramente uma abordagem predominante (aprendizado de máquina) em um destino inegável para seus potenciais desenvolvimentos. Ao mesmo tempo, para evitar a reificação de nossa capacidade de invenção e imaginação em relação à IA, é necessário ir além das especulações tecnofóbicas ou tecnofílicas que abundam quando se discutem seus riscos e oportunidades futuras (Kurzweil, 2005; Bostrom, 2014). Nesse sentido, nossa apresentação se baseia na filosofia da tecnologia de Gilbert Simondon (2007, 2017) para aprofundar os múltiplos modos de existência da IA, visto que uma das principais fontes de alienação contemporânea reside justamente na falta de compreensão da natureza das chamadas “máquinas inteligentes”. O método genético proposto por Simondon (2007) permitirá então enfatizar a necessidade de rastrear a evolução de diferentes sistemas de inteligência artificial, destacando seu desenvolvimento histórico e simultaneamente desmistificando o hype atual em torno dessas tecnologias.
Bernardo Oliveira (UFRJ)
O dinamismo genético da imagem cinematográfica: algumas considerações acerca de Scenes from under childhood (1967-70), de Stan Brakhage
No dinamismo genético da imagem cinematográfica é perceptível a analogia operacional que o cinema traça com a gênese das imagens mentais, estabelecidas nas quatro fases do circuito ontogenético preconizado por Simondon: imagens motoras, perceptivas, afetivo-emotivas (ou símbolo) e objetos-imagem, esta última produto da saturação e incompatibilidade das imagens símbolos, disparando processos que já não podem se constituir totalmente a partir das imagens passadas — ou, em linguagem cinematográfica, de clichês. A invenção da imagem no cinema implica em uma espécie de relação pela qual é possível, por transdução, embaralhar as fases do ciclo: as imagens motoras, perceptivas (sensório-motoras) e afetivas (símbolos) oferecem esquemas fundamentais para que o cinema, para além de um “objeto mnemotécnico” (Stiegler, 2010), desenvolva sua própria dimensão ontogenética e sua própria definição de invenção.
O presente trabalho pretende traçar uma analogia entre o dinamismo genético das imagens mentais, tais como Simondon enuncia em Imaginação e Invenção (1965-1966), e das imagens cinematográficas, tomando como referência Scenes from Under Childhood (1967-1970), de Stan Brakhage — conjunto de quatro filmes planejados com o objetivo de “entender o mundo de seus filhos”. Ao contrário da intimidade entre Brakhage e sua esposa, manifestada em filmes como Window Water Baby Moving (1959), as crianças em Scenes from Under Childhood “são metáforas para a “aventura da percepção”, mas não “individualidades” (Mourão, 2016). Brakhage procede por “analogia” — construindo figuras da transição e da metamorfose operada entre indivíduo e meio; ao embaralhar as fases de crescimento de seus filhos, acaba por fundar uma poética do movimento centrada nas noções de “fase” e “desdiferenciação”. E apoiando-se em uma “imagem da imagem intraperceptiva”, cria novas imagens-objeto expressas por planos-detalhe, filtros, lapsos, lampejos, cortes abruptos, fragmentos que exprimem mais uma relação inventiva com a operação ontogenética do que a reprodução de um clichê narrativo.
Cécile Malaspina (School of Materialist Research)
Comum singular: a individuação como a única impressão digital de sistemas em evolução
O que é um migrante sem passaporte? O que é um alvo humano quando identificado por um drone? O que se perde quando um ecossistema deixa de existir, além das entidades individuais que o compõem? A atenção de Gilbert Simondon ao problema da individuação adquire uma relevância singular ao confrontarmos a intensificação dos apagamentos ecocidas e genocidas de indivíduos e da natureza comum em nossos tempos. Para Simondon, a individuação diz respeito à emergência de um sistema, do qual o indivíduo é apenas uma expressão parcial. Um raio, por exemplo, é a expressão singular da evolução de um sistema climático. Argumentarei que a filosofia da individuação de Simondon possibilita uma atualização e revitalização modernas e cientificamente embasadas do realismo moderado pré-moderno de Duns Scotus, segundo o qual não apenas os indivíduos, mas também a natureza comum são reais, enquanto os universais podem ser historicizados como conceitos formados em nossas mentes. Ao ser abordado através da atenção de Simondon às restrições emergentes, dinâmicas e capacitadoras de um sistema, o realismo moderado de Duns Scotus pode ajudar aqueles de nós que insistimos em pensar sobre nossa humanidade compartilhada e nossa natureza comum (mais do que humana), a manter nossa posição face ao reducionismo moderno (segundo o qual apenas as partículas elementares fundamentais são reais).
Carlos Emanuel Sautchuk (UnB)
Por uma abordagem etnográfica da tecnicidade: inspirações simondonianas
Esta apresentação examina a dimensão operatória do conceito de tecnicidade, a fim de explorar as possibilidades de mobilizá-lo em uma perspectiva antropológica, isto é, como uma categoria analítica para tratar de questões contemporâneas que envolvem processos técnicos e processos vitais, a partir da pesquisa etnográfica. A partir da leitura desta noção na obra de Gilbert Simondon (e em diálogo com André Leroi-Gourhan), desdobram-se algumas inspirações: 1) existem diferentes tecnicidades, seja entre espécies, mas também no interior de uma mesma espécie, especialmente entre os seres humanos; 2) por se tratar de uma modalidade de relação seres vivos–meio, a tecnicidade está necessariamente inserida em correlações sistêmicas com o seu ambiente, o que a torna, portanto, fundamentalmente um conceito ecológico; 3) por fim, a tecnicidade possui uma dimensão essencialmente histórica, que se encarna em objetos situados, não apenas como instanciação de uma história tecnológica (civilizacional no sentido maussiano, Mauss 2012), mas também como capacidade ou potencial contido nos objetos, que pode ao mesmo tempo ser rastreado em uma linhagem técnica e também informar os objetos futuros. Por fim, a compreensão antropológica da tecnicidade implicaria também um processo transdutivo, que resulta da correlação entre a tecnicidade do etnógrafo (formas de percepção e registro de dados) e a dos processos e pessoas pesquisados.
Carlos Xavier de Azevedo Netto (UFPB)
A semiótica da relação entre o técnico e o estético na perspectiva arqueológica
O presente trabalho pretende discutir as relações entre os atributos técnicos e estéticos que são encontrados nos sítios de arte rupestre. Nessa discussão procura-se, a partir das noções de Leroi-Gourhan (1983/1985) de tecnicidade, cadeia operatória, meio técnico, fato técnico, entre outros, verificar que correlações podem ser inferidas nos fazeres pré-coloniais nos painéis de arte rupestre encontrados no semiárido paraibano. Nessa vertente, recorreu-se a Simondon (2007), quando discute a interconectividade entre o pensamento técnico com o estético, já que esses dois autores visam a compreensão do humano através de suas ações no mundo. Para efetivação dessas discussões, compreende-se que esses fazeres são signos, no sentido peirceano, como foi indicado por Preucel (2006). Para tanto, essa discussão vai ser centrada nas ocorrências dos sítios Muralha do Meio do Mundo, no Município de São João do Cariri, e Roça Nova, Município de Camalaú, ambos no semiárido paraibano. O sítio Muralha do Meio do Mundo encontra-se em um suporte granítico, formando um dique, onde foram encontrados signos de diferentes estéticas, mas com sobreposição, todos em tonalidade vermelha. A primeira ocupação foi de grafismos de contornos circulares, de variadas formas, com um pigmento de textura mais líquida, já a segunda, apresenta motivos lineares, recobrindo os demais, mas com uma textura de tinta mais pastosa. Mas há evidências de incorporação de um tipo de signo circular por essa segunda leva, já que apreste cobertura de um pigmento pastoso sobre um líquido. No caso do sítio Roça Nova, ele ocorre sobre um afloramento granítico, de grande extensão e altura. Nele são observados signos de antropomorfos, zoomorfos e mãos, em vermelho, e tonalidade, e amarelo. As técnicas de sua execução são pintura com pincel, com dedos e decalque. As figuras apresentam técnicas e espaço específicos, com os antropomorfos e quadrúpedes com pintura de dedos, as aves com uso de pincel ou espátula e as mãos, adultas, por decalque e prolongamento, e infantis por decalque. No caso do primeiro sítio identificamos a apropriação de signos de uma ocupação pela outra, já no segundo caso, pode-se ver a ordenação de fazeres que os executores escolheram para ocupar o suporte. Essas relações permitem vislumbrar uma descrição mais densa das ocorrências, dos diferentes signos rupestres nesses sítios.
Claudio Celis Bueno (U. van Amsterdam)
Simondon, Marx, e a pergunta pela teoria do valor
Esta apresentação explora a relação entre Marx e Simondon sob a perspectiva da teoria do valor. Para tanto, a apresentação se divide em quatro seções. A primeira seção revisa brevemente as distintas reflexões que foram feitas sobre o vínculo entre o pensamento de Simondon e o de Marx. A segunda seção explica brevemente os pontos centrais da teoria do valor de Marx. A terceira seção põe em questão a distinção entre trabalho vivo e trabalho morto na teoria do valor de Marx através da noção de limite de Simondon, particularmente o limite entre o vivente e o não vivente. A quarta e última parte indaga se é possível ou não desenvolver uma teoria do valor adequada ao capitalismo contemporâneo com base na noção de informação de Simondon.
Daniela Alves Braga (UECE)
Da técnica à formação integral: o pensamento de Gilbert Simondon e o combate à alienação técnica como fundamento da inclusão digital
Este trabalho discute as contribuições do pensamento de Gilbert Simondon para a compreensão da inclusão digital como processo formativo orientado à superação da alienação técnica no contexto da inovação educacional na rede pública de ensino de Fortaleza. Parte-se da concepção simondoniana de técnica como dimensão constitutiva da cultura e da formação humana integral, em oposição às abordagens que reduzem os objetos técnicos a instrumentos meramente funcionais. Nesse sentido, a pesquisa reflete sobre a necessidade de promover relações pedagógicas mais conscientes e reflexivas com as tecnologias digitais, compreendendo-as como mediadoras da individuação e da construção do conhecimento. A análise fundamenta-se nos conceitos de tecnicidade, individuação e transdução, considerados centrais para interpretar práticas educativas comprometidas com a apropriação crítica dos objetos técnicos. Argumenta-se que a inclusão digital, quando orientada por esses princípios, ultrapassa o acesso material aos dispositivos e passa a envolver processos de compreensão, uso criativo e participação ativa dos sujeitos na cultura tecnológica contemporânea. Destacam-se, contudo, desafios relacionados à formação docente, às condições estruturais das escolas públicas e à persistência de práticas pedagógicas centradas no uso instrumental das tecnologias. Conclui-se que o enfrentamento da alienação técnica constitui elemento fundamental para a consolidação de políticas de inclusão digital orientadas à formação integral e à autonomia dos educandos em contextos socialmente desiguais.
Danilo Melo (UFF)
Simondon e a psicologia da Gestalt: por uma axiomática metaestável nos estudos da percepção
Os estudos capitaneados pelos teóricos da gestalt estabeleceram importantes avanços em relação ao campo de investigação da percepção na psicologia, sobretudo acerca do elementarismo presente na abordagem associacionista, perspectiva prevalente até aquele momento. No entanto, apesar dos avanços epistemológicos, o gestaltismo manteve uma posição ontológica equivalente à abordagem da qual se opôs ao privilegiar e substancializar o conceito de forma. Encontramos na filosofia da individuação de Gilbert Simondon uma abordagem que retoma os estudos da percepção a partir de uma axiomática que renova suas condições ontológicas ao substituir o modo de pensamento pautado na noção de equilíbrio estável, proposto pela psicologia da gestalt, por uma perspectiva intensiva e metaestável que busca investigar a forma a partir de seu processo de gênese. Junto à adoção de tal direção, Simondon concebe o indivíduo como uma realidade transdutiva a partir da qual a gênese da percepção é contemporânea da individuação do psiquismo e do coletivo, lançando assim as bases de uma axiomática transindividual aplicada à investigação dos processos perceptivos.
Diego Gómez-Venegas (Berlim)
Poder, conhecimento e estética: três leituras incompletas da obra de Simondon
Ao examinar três estudos de caso — um evento político, um conflito cultural e um trabalho artístico — todos eles, no entanto, atravessados pela técnica, esta apresentação se concentra em três aspectos da filosofia de Gilbert Simondon (transindividualização, enciclopedismo e tecnicidade) para esboçar o alcance e a profundidade de sua obra, bem como o potencial analítico contemporâneo que ela oferece às ciências humanas. Ao mesmo tempo, esta apresentação não pretende ser uma discussão exaustiva de cada um desses três aspectos, mas sim uma indicação de uma maneira ainda incompleta e imperfeita de aplicar a filosofia de Simondon como marco e método para estudos que abrangem a teoria da mídia, a história da cultura e as artes midiáticas.
Diego Viana (FFLCH-USP)
Notas sobre uma inclinação contemporânea à cosmologia e o possível papel de Simondon
Em um livro recente, o filósofo Renaud Barbaras propõe, por meio do conceito de pertencimento (appartenance), uma “cosmologia fenomenológica”. Segundo Barbaras, o pertencimento permite escapar às limitações de uma fenomenologia que situa a experiência originária na temporalidade, na consciência ou no corpo, involuntariamente reproduzindo um dualismo clássico. É na experiência de pertencer a um mundo, a uma natureza, como seu acontecimento e afecção, que Barbaras busca a cosmologia fenomenológica – e talvez se trate antes de uma fenomenologia cosmológica. Aspirações a fundar cosmologias, como a de Barbaras, têm sido recorrentes na filosofia contemporânea (constituindo, talvez, uma virada cosmológica?). Inspirando-se em Whitehead, Schelling, Deleuze e Guattari, autores como Isabelle Stengers e Didier Debaise, Iain Hamilton Grant, Ted Toadvine, Yuk Hui, Annabelle Dufourcq ou Marco Antônio Valentim orientam suas interrogações na direção dos conceitos de “natureza”, “mundo” e “universo”. Tomando por base o texto de Barbaras, este estudo visa mostrar que esses autores estão em busca de um pensamento da ontogênese, da indeterminação e dos campos, que se beneficia, ou se beneficiaria, do recurso aos principais conceitos de Simondon, a tal ponto que se pode defender que há em Simondon a semente de uma poderosa reflexão cosmológica.
Dusan Kotoras Straub (U. Diego Portales)
O Fantasma e a máquina: por uma redefinição operativa do conceito de alienação
Este artigo propõe operacionalizar a hipótese da alienação da tecnologia a partir da leitura crítica da tradição marxista feita por Gilbert Simondon. O ponto de partida retoma a análise dos Grundrisse, onde Marx adverte que as máquinas incorporam o conhecimento social na forma de capital fixo, fazendo com que o conhecimento apareça como uma potência estranha ao operador. Partindo dessa premissa, reinstaura-se a distinção entre máquina fechada (trivial) e aberta (não trivial), em que as primeiras eliminam a margem da indeterminação e as últimas introduzem graus de liberdade que possibilitam o acoplamento recíproco. Para formalizar esse fechamento operacional, o artigo se baseia na lógica do fantasma de Jacques Lacan, entendida como o suplemento simbólico que obstrui as mediações constitutivas do objeto técnico. À luz de uma antiga conjectura de Heinz von Foerster, essa lógica é aplicada à relação entre dados e algoritmos, cuja trivialização constante nos impede de apreender a complexidade de seus modelos subjacentes. Assim, sustenta-se que a lógica da alienação contemporânea reside na impossibilidade de refletir sobre as condições técnicas de funcionamento em escala planetária. Seu correlato fantasmagórico exige, portanto, uma investigação dialética capaz de restituir a inteligibilidade das operações que sustentam a máquina.
Gláucia Figueiredo (Unicamp)
Modelos educativos e modulações pedagógicas: contribuições do pensamento de Gilbert Simondon para pensar a pedagogia contemporânea
O presente trabalho propõe analisar a noção de modulação no pensamento de Gilbert Simondon, articulando-a com produções específicas no campo da Filosofia da Diferença e apontar alguns desdobramentos de tal conexão no campo da Filosofia e da Educação contemporâneas. Em Simondon, a modulação aparece como operador central da individuação, contrapondo-se à forma fixa e ao molde, ao introduzir um regime de variação contínua, metaestável e aberto, no qual os processos se dão por transdução. A partir dessas bases, o trabalho explora a noção de modulação pedagógica compreendendo o educativo não como transmissão de formas estáveis, mas como campo de variações, intensidades e invenções. A modulação pedagógica desloca o foco da formação como conformação para a forçação como processo plástico e inventivo, no qual sujeitos e saberes se co-individuam em meio a práticas e dispositivos. Defende-se a experienciação de uma pedagogia menor que existe porque modula, porque é capaz de operar entre estabilidade e variação, forma e processo, ensino e invenção. Uma modulação pedagógica permite uma inflexão decisiva na compreensão dos processos educativos ao deslocar o foco dos modelos formais para os processos de individuação em curso. Em Simondon, a modulação se opõe ao paradigma do molde: enquanto o molde impõe uma forma exterior e estável sobre uma matéria passiva, a modulação opera como variação contínua, ajustamento dinâmico e acompanhamento das tensões internas de um sistema metaestável. No campo educacional, os chamados modelos educativos — sejam eles tradicionais, tecnicistas ou mesmo certas vertentes críticas institucionalizadas — tendem a operar sob a lógica do molde: currículos prescritos, objetivos previamente definidos, avaliação padronizada e a ideia de um sujeito a ser formado segundo uma forma ideal. Mesmo quando se flexibilizam metodologias, permanece, muitas vezes, uma estrutura formal que antecipa o que deve ser aprendido e como o sujeito deve se constituir. Há que criar condições para que processos de individuação emergentes possam se atualizar e a radical virada epistêmica e pedagógica ocorra: o docente deixa de ser um transmissor ou modelador para atuar como modulador — alguém que intervém nas intensidades, regula ritmos, desloca problemas e acompanha variações. Assim, a oposição entre modulação pedagógica e modelos educativos não é apenas metodológica, mas ontológica e política. Enquanto os modelos tendem à normalização e à previsibilidade, a modulação afirma a diferença, a contingência e a abertura do processo educativo. Trata-se de pensar a educação não como reprodução de formas, mas como produção de modos de existência, em um campo sempre inacabado de relações e devires.
Gonzalo S. Aguirre (UBA)
Tropicalia lixo jurídico: trovadores e glossadores, oralidade e escrita desde uma perspectiva tecnoestética Simondoniana
À luz da perspectiva tecnoestética de Simondon e de sua definição de “enciclopédia”, gostaríamos de apresentar uma possível história do direito moderno em termos de modificações e operações técnicas sobre a linguagem. Partindo dos glosadores bolonheses em sua relação com a poesia oral dos trovadores occitanos, tentaremos seguir o fio condutor que leva à Gramática e Lógica de Port-Royal e, a partir daí, a uma construção lógico-operativa como a “norma jurídica” de Hans Kelsen.
Helano de Sousa Castro (UFC)
Da Cibernética a inteligência artificial: uma abordagem usando o conceito de informação de Simondon
A Cibernética exerceu uma grande influência no pensamento de Simondon, e seus traços podem ser encontrados em suas obras, sobretudo em IFLI e em MEOT. No entanto, o filósofo francês fez algumas ressalvas importantes, como na insistência dos primeiros cibernéticos em equiparar o ser vivo com o objeto técnico, o assim denominado isomorfismo. No fundo dessa crítica reside a distinção entre a o conceito de informação adotado pela cibernética e aquela no pensamento de Simondon, esta última tendo um papel importante no pensamento do filósofo, tanto no que se refere ao processo de individuação como na sua filosofia da técnica. A cibernética exerceu também influência marcante nos pioneiros da Inteligência Artificial (IA), área de estudo que surge no início dos anos 1950, logo após a cibernética, e tanto a informação cibernética, como a ideia do isomorfismo, não só foram incorporadas à IA, mas amplificados, principalmente por influência do transhumanismo digital do Vale do Silício. A informação cibernética, sobretudo como a esboçada pelo matemático Norbert Wiener, foi, por sua vez, inspirada na teoria da transmissão da informação de Claude Shannon, que, talvez não por acaso, se relacionou com essas duas correntes de pensamento. Trataremos de mostrar como o conceito de informação foi determinante nas críticas que Simondon dirige à cibernética, e como grande parte dessas críticas podem ser igualmente dirigidas à atual visão isomorfista predominante na IA.
Hermano Callou (UFRJ)
Três regimes de automatismo
A ideia de uma imaginação automática tem entrado novamente na ordem do dia desde quando, no início desta década, uma série de companhias de tecnologia lançaram seus primeiros aplicativos de geração de imagem baseados em aprendizado de máquina. A ideia de imagem automática, contudo, ocupa as nossas preocupações há muito mais tempo, desde, pelo menos, a invenção da fotografia em meados do século XIX, possuindo uma história complexa que merece ser retomada, em um esforço de compreensão genealógico do momento em que nos encontramos.
Esta comunicação pretende discutir a ideia de imagem automática, esboçando diferentes regimes de automatismo e as formas de visão que eles deram lugar. A fotografia é considerada um procedimento automático porque nega o processo de autocorreção dinâmica (Ahern, 2018), que caracteriza a produção tradicional de imagens, para a qual a pintura é o paradigma. O fotógrafo dispara um processo que se desdobra automaticamente, uma vez tendo sido iniciado, sem chance de corrigir seu curso.
A fotografia representa o caso privilegiado de uma primeira forma de automatismo, que caracteriza máquinas fechadas como a câmera fotográfica, dotadas de baixa margem de indeterminação (Simondon, 2020). O surgimento do vídeo representa uma nova forma de automatismo, na medida em que ele reintroduz a possibilidade de autocorreção dinâmica. O vídeo nos fornece uma imagem em tempo presente (Graham 1979), que permite a simultaneidade da produção e a exibição da imagem, de modo que a imagem produzida pode retroalimentar seu próprio processo de produção.
As imagens geradas por Inteligência Artificial Generativa representam um novo regime de automatismo, que é baseado na renderização de representações probabilísticas (Steyerl, 2025). As imagens de AI nos mostram nem o passado da fotografia, nem o presente do vídeo. Elas representam uma forma de futuridade, na medida em que são produzidas pela navegação em um espaço de possibilidades, no interior de um esforço preditivo, conformado pelas estimativas do estatisticamente provável.
Jader Gama (UFPA)
A emergência de uma cosmotécnica amazônida: continuidade técnica e rearticulações situadas a partir da filosofia da técnica de Simondon
Este trabalho parte de um incômodo situado: a crescente dissociação entre sistemas técnicos contemporâneos e os territórios onde são implantados, produzindo formas recorrentes de alienação técnica. Mobilizando a filosofia da técnica de Gilbert Simondon como lente analítica, busca-se compreender como tais processos se manifestam em contextos amazônidas, caracterizados por ecologias complexas de saberes, práticas e modos de vida. A reflexão se ancora em experiências concretas de organização sociotécnica, especialmente a iniciativa Terra Preta Digital e o desenvolvimento da plataforma Plantaformas, compreendidas não como soluções tecnológicas isoladas, mas como processos coletivos de reapropriação e reconfiguração da técnica. Nesses contextos, infraestruturas digitais livres são articuladas a práticas comunitárias envolvendo comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas, nas quais a técnica não se separa do território, mas se constitui em relação com ele. A partir dessas experiências, propõe-se a noção de cosmotécnicas amazônicas como um esforço de nomeação de processos em emergência, nos quais a relação entre técnica, meio e saber se organiza a partir de dinâmicas situadas de enraizamento, compartilhamento e transformação. Tais processos podem ser compreendidos como formas de continuidade técnica geracional, nas quais práticas historicamente constituídas — como aquelas associadas à produção da terra preta — atualizam seus modos de operação ao atravessar diferentes materialidades, incluindo aquelas vinculadas à organização e circulação de informações, sem ruptura com suas formas de enraizamento. Nesse sentido, o que se observa não é a introdução de tecnologias externas em territórios específicos, mas a persistência de modos de operação técnica que se atualizam ao incorporar novas infraestruturas. A análise das experiências apresentadas evidencia que a técnica, nesses contextos, não se organiza como sistema autônomo orientado à universalização, mas como processo relacional, atravessado por práticas, cosmologias e formas de vida. Ao mobilizar Simondon a partir desse contexto, o trabalho busca contribuir para o debate contemporâneo ao explicitar outras configurações possíveis da relação entre técnica, meio e saber, a partir de experiências situadas.
Jim Schurb (Univ. Nanterre)
O professor, a instituição e o instrumento: sobre os personagens da educação integral simondoniana
Partindo da definição de educação de Simondon como aquilo que possibilita a transição de um “contrato entre o homem e o mundo” (Simondon, 2014, p. 207), examinaremos como Simondon ancora sua teoria da educação a uma teoria da transição da infância para a idade adulta. Para o próprio pensamento de Simondon, e em virtude de seu arcabouço conceitual específico, esse gesto teórico suscita questões: de fato, se o ser humano é caracterizado por uma neotenia que o vincula à infância, o método de análise segundo o qual a história das culturas, tecnologias e sociedades é equivalente à história da negociação do tornar-se adulto (e, portanto, da educação) torna-se uma ideia estranha. O que significa tornar-se adulto quando não se abandona completamente a infância? O que acontece com os mecanismos educacionais, com os atos de transmissão, pensados, produzidos e/ou realizados por adultos? Para responder a essas questões, desenvolveremos duas análises. Na primeira parte, examinaremos os três elementos-chave do que poderíamos chamar de educação integral simondoniana: o professor, a instituição e o instrumento (Simondon, 2010, p. 80). Na segunda, proporemos a compreensão dos materiais didáticos como moduladores cujo efeito é tanto a formação do conhecimento quanto uma forma de relação transindividual e subjetivante com valor terapêutico. Simondon estava perfeitamente ciente desse valor terapêutico, como evidenciado por seu foco na educação de adultos e no acesso ao conhecimento para jovens que haviam se voltado para a delinquência.
Joaquin Andres Zerene Harcha (U. Diego Portales)
Sobre a imaginação técnica: reflexões em torno das relações entre imaginação, técnica e estética no pensamento de Gilbert Simondon
Nesta apresentação, exploraremos algumas das ideias de Gilbert Simondon em torno das relações entre estética e tecnologia, centrando-nos em suas reflexões sobre o continuum que vincula imaginação e invenção. A imaginação leva à invenção e, por sua vez, toda invenção afeta o devir da imaginação. Essa causalidade circular pode ser compreendida à luz do ciclo da imagem que o filósofo propõe para pensar a imaginação como uma atividade que envolve mente e matéria, interioridade e exterioridade, uma realidade intermediária entre sujeito e objeto, abstrato e concreto, passado e futuro. No pensamento de Simondon, a imaginação é fundamental para explorar os modos de existência dos objetos técnicos e compreender seu papel na formação dos modos de vida humanos. Poderíamos até falar de uma imaginação técnica, um tipo especial de sensibilidade para tecnicidade. Seu cultivo é central para avançar no desafio simondoniano de construir uma cultura técnica capaz de superar a oposição entre cultura, como âmbito do sentido, e a técnica, como uma dimensão reduzida à utilidade. Simondon convoca tecnólogos, filósofos e artistas para essa tarefa, para tomar consciência da realidade técnica e imaginar outros mundos possíveis.
Jorge William Montoya Santamaría (U. Nacional de Colombia)
Animalidade e humanidade em Gilbert Simondon
Nesta apresentação, exploraremos o problema da animalidade e da humanidade a partir da perspectiva do filósofo francês Gilbert Simondon. O autor propõe a individuação como fundamento comum a todos os seres vivos, permitindo-nos ir além dos dualismos herdados que opõem animal e humano, particularmente o dualismo cartesiano. De uma perspectiva vitalista, enfatizaremos a importância de tornar visível a animalidade presente nos humanos, que foi desprezada, senão reprimida, por uma tradição humanista que buscava aprofundar a separação. Simondon propõe a ontogênese, entendida como o devir do ser; por essa razão, argumentamos que ele pode ser considerado um pensador vitalista que não invoca uma força vital, mas sim um processo contínuo e dinâmico no qual as relações com o ambiente associado nos impedem de pensar o ser vivo como um mero mecanismo. Outro aspecto que abordaremos nesta apresentação diz respeito ao lugar central que Simondon atribui à tecnologia como mediadora entre o homem e o mundo. Esta é mais uma proposta para ir além da rígida compartimentalização que frequentemente se torna o problema da natureza exaltada (o animal) e da artificialidade degradada (o humano). No entanto, Simondon não busca apagar as diferenças, pois ele entende que existe um gradiente que complica a individuação, permitindo que a inteligência humana reorganize estruturas instintivas, sem que isso o torne um pensador que afirma o antropocentrismo, porque, ao criticar o humanismo simplista, o que ele propõe é uma visão ampla de cultura que inclui a tecnologia e a entende como uma extensão da própria vida.
Juan Manuel Heredia (UBA)
A noção de “conjuntos técnicos” em Simondon
Esta apresentação explora o significado e o alcance da noção de “conjuntos técnicos” na filosofia da tecnologia de Simondon. Nossa hipótese é que essa noção é fundamental porque abre um espaço teórico para pensar diferentes dinâmicas sociotécnicas, integrando elementos epistemológicos, tecnológicos e políticos presentes em sua filosofia. Consideramos que a entronización do conceito de concretização obscureceu esse espaço e, por outro lado, que a abertura proporcionada pela ideia de tecnicidade às vezes leva a um alto grau de abstração. Tentaremos demonstrar que, entre esses dois polos (aquele que reconduz a tecnicidade ao objeto e aquele que a desdobra no sistema da rede “humano-mundo”), a noção adquire significado relevante e contribui para situar o problema da relação entre humanos e máquinas em uma escala favorável tanto a estudos empíricos quanto a considerações normativas.
Laura Francis (USP)
O Ciclo Genético das Imagens: Imaginação e Invenção em Gilbert Simondon
Esta apresentação propõe uma leitura do livro Imaginação e Invenção (1965–1966), de Gilbert Simondon, destacando sua formulação de uma teoria genética da imagem que redefine seu estatuto ontológico. Resultado de um curso ministrado na Sorbonne a estudantes de psicologia e filosofia, o texto articula e prolonga as principais intuições das
teses do autor — da ontogênese do ser vivo à invenção técnica — por meio de uma abordagem transdisciplinar que mobiliza referências que vão da biologia e etologia à psicanálise, da filosofia às artes e à tecnologia. A originalidade dessa abordagem reside na recusa de dicotomias clássicas, mostrando que a imaginação não é privilégio da consciência, mas uma dimensão operatória da vida, dotada de dinâmica própria e relativa autonomia. Simondon descreve um ciclo genético das imagens, que articula imaginação e invenção em fases distintas e coextensivas, incluindo imagens-motoras, imagens-perceptivas e imagens-simbólicas, culminando na invenção, entendida como produção de imagens-objetos, sejam elas técnicas, artísticas, religiosas ou sociais… Esses objetos não são apenas meros resultados, mas cristalizações de tensões, capazes de reorganizar o meio e reiniciar o ciclo, gerando novas imagens e novos processos de individuação. A invenção, nesse contexto, não é criação ex nihilo, mas resolução de incompatibilidades em sistemas metaestáveis, operando por saltos que instauram novas compatibilidades entre ordens heterogêneas. Ao reposicionar a imagem como força de mediação e transformação, Simondon oferece uma chave para pensar a produção do real como processo contínuo de individuação, no qual imaginar e inventar constituem momentos inseparáveis de uma mesma dinâmica criadora.
Lina Marcela Gil (U. de Antioquia)
Norma, normalidade e individuação
Na perspectiva ontogenética de Simondon, sabemos que o “normal” consiste na capacidade de um vivente de resolver problemas e criar novas compatibilidades. Esta apresentação questiona a psicopatologia como conformidade a um padrão ou medida exterior e reconhece as diferentes fases em que as problemáticas psíquicas não podem se resolver unicamente de maneira intraindividual, exigindo o trânsito ao transindividual. Contudo, nem todos os indivíduos possuem a mesma capacidade de “navegar” de maneira fluida pelo mundo. O conceito de normogênese é proposto para pensar o amplo espectro que vai do normal ao patológico, utilizando o autismo como exemplo, entre outras abordagens.
Lori Regattieri (Green Screen Coalition)
Observações Simondonianas sobre o império da IA: individuação técnica, meio associado e crise ecológica
Essa conversa situa as infraestruturas de inteligência artificial dentro da abordagem conceitual elaborada por Simondon, reconhecendo-as como artefatos dotados de um modo de existência, um contorno histórico e uma estrutura de tecnicidade. A IA emerge como objeto técnico cuja individuação é inseparável dos meios socioambientais e energéticos que condicionam sua existência, seu uso e sua proliferação. Em Simondon, o objeto técnico se concretiza ao produzir um meio associado, uma zona de ressonância entre o funcionamento da máquina e o ambiente que a sustenta. As infraestruturas de IA operam pela ruptura desse princípio, impondo meios dissociados nos quais a energia, a água e o território são capturados como suportes logísticos de uma circulação que não retorna ao lugar.
Em diálogo com Denise Ferreira da Silva, Luciana Parisi, Stefano Harney e Fred Moten, argumento que a crise ecológica não aparece nesse regime como limite, mas como variável administrável que legitima novos corredores logísticos e arranjos financeiros. A racialidade, como mostra Ferreira da Silva, transmite a lógica jurídico-econômica da escassez como fundamento do político, naturalizando a expropriação como condição de governo. É nessa gramática que o Império da IA se instala e se espraia. O conceito de mundificação sociotécnica permite acompanhar como essas infraestruturas performam mundos, inscrevendo na matéria critérios de presença, valor e duração que tornam invisíveis as ecologias, os corpos e as temporalidades que não se deixam traduzir em disponibilidade contínua. A conversa examina a expansão de data centers em Caucaia, no Ceará, como expressão material desse regime, onde a promessa de inovação sedimenta processos de longa duração de despossessão cosmo-ecológica.
Lucas Paolo Sanches Vilalta (USP)
Retroalimentação de IAs: os processos de datificação, algoritmização e plataformização a partir de modelos cibernéticos
Trata-se, dando continuidade às discussões latino-americanas acerca da reconfiguração da tecnicidade, realizada por autores como Rodríguez, Sandrone, Blanco, Heredia e Viana, de propor uma leitura geral de como a tríade simondoniana dos níveis de tecnicidade (elementos, indivíduos e conjuntos técnicos) se reorganiza em sistemas de dados, algoritmos e interfaces-plataformas no capitalismo digital. Para tanto, apresentaremos um esquema cibernético geral composto por inputs, modelos e outputs e de como esse esquema representa computacionalmente os processos digitais de datificação, algoritmização e plataformização. Mostraremos como elementos técnicos como ferramentas e instrumentos passam a operar por meio de sensores e modelos computacionais na transformação de sinais e informações em relações codificadas e estruturadas a partir de metadados. Adicionalmente, apresentaremos como indivíduos técnicos se generalizam como modelo comportamental para toda a sociedade por meio de processos de delegação de funções e automatização da vida social. Algoritmos, então, serão instruções codificadas que modulam e organizam todos os tipos de comportamentos — fazendo as máquinas já não serem exteriores a nós. Por fim, mostraremos como os conjuntos técnicos — espaços que organizam o trabalho, a produção e as relações técnicas — se expandem para todo o domínio da vida social por meio dos processos de plataformização (internet, interfaces, configurações default, etc.), fazendo com que as plataformas se tornem infraestruturas pelas quais todas as instâncias da vida social, cultural, política e econômica ocorrem. Tal processo expressa de modo paradoxal o que Simondon denominou “transindividualidade da técnica”. Tendo apresentado esses processos de reconfiguração da tecnicidade, finalmente, propomos considerar a assistência e agência de sistemas de IA como modelos de feedback associado, isto é, modelos que representam e retroalimentam os processos de datificação, algoritmização e plataformização de modo ininterrupto. Mais que uma nova tecnologia, são as IAs que permitem que os dados, algoritmos e interface-plataformas representem computacionalmente seus modos digitais de representar e agenciar processos, visando tornar imanente a recursividade da tecnicidade.
Luis González Mérida (Universitat Autònoma de Barcelona)
A dialética de Simondon
Émile Jalley (2017) denunciou o consenso generalizado entre os comentadores e intérpretes de Simondon a respeito da natureza antidialética de seu pensamento. Segundo Jalley, esse consenso deriva da rejeição dos três filósofos “malditos” do estruturalismo e do pós-estruturalismo — Hegel, Marx e Freud — que supostamente compartilhavam um uso comum da dialética. A pesquisa de Jalley faz parte de um projeto muito maior que busca as manifestações de um “núcleo racional dialético” na história das ideias. Assim, ele tenta demonstrar, em detalhes, um método dialético nos textos de Simondon, operando em três níveis de explicitação (dialética manifesta, dialética como tal e dialética latente). Jalley encontra um precedente na resenha de Deleuze sobre o IGPB, onde uma dialética de Simondon também é discutida. Minha resposta em Campos da Forma (2023) foi, por um lado, que uma interpretação dialética da noção de fase deveria ser evitada — para não perder seu sentido informacional e morfogenético — e, por outro lado, que embora Deleuze pudesse estar buscando uma dialética pós-hegeliana, Simondon caminhava em direção a um pensamento pós-dialético — uma cibernética universal ou alagmática. Retomando o argumento, exploraremos agora outros aspectos desse problema.
Marcos Paulo Ramos (PUC-GO)
Arqueologia Simondoniana: ontogênese, tecnicidade e a teoria das fases da cultura para abordar o registro lítico
Esta comunicação propõe a Arqueologia como uma Ciência da Ontogênese, buscando no registro material não objetos estáticos, mas o testemunho de um devir humano em constante individuação. Refutamos o equívoco hilemórfico tradicional para resgatar a relação com valor de ser, tratando a pedra lascada como testemunho de sistemas energéticos metaestabilizados. Através da Abordagem Tecno-Funcional de Eric Boëda, identificamos essências técnicas estáveis que permitem rastrear a evolução de linhagens em direção à concretização sinérgica. Demonstramos como os objetos líticos são artefatos privilegiados para seguir esse processo através da produção de tecnografias que revelam o salto do objeto abstrato ao concreto. Destacamos o papel crucial dos objetos criptotécnicos de baixa visibilidade no reconhecimento da alteridade radical, combatendo o esteticismo arqueológico que aliena tecnicidades insuspeitáveis. Sob a ótica da Teoria Genética das Fases da Cultura o registro arqueológico é interpretado como o traço de um Optativo Prático, permitindo ao arqueólogo atuar como “mediador filosófico”. O objetivo final é reintegrar a técnica ao humanismo, transformando o estudo do passado Pleistocênico em uma reserva de futuro ancestral e ecumênico.
María de Lourdes Solís Plancarte (ENP-UNAM)
A alagmática e a mecanologia de humanos, plantas e máquinas
Esta apresentação propõe uma reconfiguração do problema da ética com base na alagmática (teoria das operações) e na mecanologia (o estudo da evolução técnica), centrando a atenção no papel do vivente como mediador fundamental. Primeiramente, analisa como a alagmática nos permite compreender tanto o organismo biológico quanto o objeto técnico não como substâncias fechadas, mas como processos de individuação em constante intercâmbio. Sob essa perspectiva, a vida não se opõe à tecnologia; ambas são modalidades da mesma capacidade operativa para resolver problemas de equilíbrio metaestável. Em segundo lugar, examina-se a mecanologia como o espaço onde o ser humano deixa de ser um usuário externo e se torna o “intérprete”, o mediador que garante a sinergia entre diferentes sistemas. O papel do ser humano (e do vivente em geral) é redefinido: não como dominador da matéria, mas como um nó de ressonância que permite a comunicação entre o reino da vida e o dos objetos técnicos. Finalmente, postula-se que uma ética contemporânea deve abandonar juízos sobre a utilidade das máquinas para se concentrar na preservação da capacidade do devir. O compromisso ético consiste em manter a operatividade do mundo, integrando o vivente a um tecido técnico-biológico onde a alienação é superada pelo conhecimento e cuidado com as mediações. A ética se converte, assim, em uma responsabilidade sobre a continuidade dos processos da vida e da técnica.
Pablo Manolo Rodríguez (Conicet-UBA)
O ciclo simondoniano da imagem hoje
Em Imaginação e Invenção, Simondon desenvolve uma concepção da imagem não em termos de representação, nem como algo pertencente a uma faculdade humana de imaginação, mas em termos de materialidade e objetualidade. Ele argumenta que a imaginação, em termos sociais, se desenvolve ao longo de um arco que se estende das condições biológicas às manifestações técnicas. Em vez da imaginação como uma dimensão da existência humana, o que existe para Simondon é um ciclo da imagem que chega ao fim e se relança como invenção. Nos tempos da chamada “visão maquínica”, das “imagens invisíveis” e da “imaginação artificial”, como o ciclo da imagem se reconfigura? Ele ainda existe como tal? Se a artificialidade da imagem não está mais vinculada a objetos técnicos como os conhecíamos, mas se desdobra em um tecido de dados, algoritmos, plataformas e interfaces, podemos falar de um novo ciclo da imagem? Em caso afirmativo, ainda haveria espaço para a invenção no sentido simondoniano?
Pedro P. Ferreira (Unicamp)
Leituras chilenas de Simondon: resultados preliminares de uma investigação
Gilbert Simondon vem sendo, desde aproximadamente 2015, crescentemente trabalhado no campo das humanidades chilenas. Proponho apresentar alguns resultados preliminares de minha investigação atual sobre as especificidades dessas leituras chilenas de Simondon. A pesquisa envolve a análise de um corpus de publicações de pesquisadores(as) chilenos(as) envolvendo obras e conceitos de Simondon, e também entrevistas com esses(as) mesmos(as) pesquisadores(as). Apresentarei aspectos de minhas descobertas ligadas, sobretudo, à análise de um corpus de 80 publicações de áreas diversas (Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Artes, Arquitetura etc.), envolvendo: temas frequentes, obras mais citadas, autores mais citados, campos disciplinares envolvidos nas publicações, entre outros aspectos. A intenção será oferecer uma imagem parcial e panorâmica, mas bem documentada, das leituras chilenas de Simondon.
Renzo Filinich Orozco (University of the Witwatersrand)
Para além do olhar humano: materialidade e a desantropologização da visão
Esta apresentação examina como as tecnologias de mídia contemporâneas transformam as condições da visualidade, desafiando modelos antropocêntricos de percepção historicamente baseados no olhar humano. Inspirando-se nas filosofias de Gilbert Simondon e Bernard Stiegler, argumenta que a visão não é apenas ampliada por dispositivos técnicos, mas também reconfigurada por meio de processos de individuação e transindividuação tecnológica. De dispositivos óticos e sistemas de perspectiva a mídias algorítmicas e visão computacional, a imagem se desvincula progressivamente da percepção humana encarnada e se torna uma entidade operativa dentro de infraestruturas técnicas. Mediante uma análise de sistemas de mídia históricos e contemporâneos, a apresentação desenvolve o conceito de visualidade distante para descrever maneiras de ver que funcionam além da experiência fenomenológica. Nesse contexto, a visão emerge como um processo distribuído, moldado por sistemas materiais, computacionais e mnemônicos, marcando uma transição rumo à desantropologização da percepção e à emergência de regimes de visualidade pós-humanos e não humanos.
Rodrigo Andres Gonzalez Acevedo (U. Adolfo Ibáñez)
Um humanismo cibernético? Uma reflexão sócio-filosófica sobre o humano em Gilbert Simondon
O objetivo desta apresentação é refletir sócio-filosoficamente sobre o “humanismo difícil” proposto por Gilbert Simondon em O Modo de Existência dos Objetos Técnicos, com base no desenvolvimento histórico da cibernética, a fim de avaliar o alcance e as limitações de sua concepção do humano. Para tanto, começo por apresentar a reflexão de Simondon sobre o antropocentrismo no contexto do debate sobre o humanismo iniciado por Sartre e Heidegger na década de 1940, bem como sua influência no surgimento do pós-humanismo e do anti-humanismo no período pós-guerra. Em seguida, em contraste com a tese de Peter Sloterdijk sobre a necessidade de um humanismo cibernético, caracterizado pela reinscrição do humano na cultura tecno-mecanicista como forma de confrontar a crise do humanismo moderno, posiciono o “humanismo difícil” de Simondon como uma deriva cibernética alternativa, na medida em que este defende uma cibernética baseada na autonomia em vez do controle sistêmico. Partindo desse princípio antropológico e tecnológico da autonomia, articulo algumas reflexões sociológicas e filosóficas sobre o estatuto contemporâneo do humanismo de Simondon em relação ao transhumanismo, o devir ambiental dos sistemas algorítmicos e o papel da técnica diante da crise climática.
Stefano Schiavetto (E.E. Otoniel Mota)
A privatização da redução da margem de indeterminação como condição e recurso do capitalismo de plataformas na educação básica globalizada
Aplica-se a expressão de privatização da redução da margem de indeterminação para caracterizar disputas entre corporações da indústria microeletrônica pela abertura de laboratórios privados para monopolização da pesquisa e da invenção de camadas eletrônicas plataformais, o que oferece uma posição vantajosa entre o atual e determinado e o virtual e indeterminado no vislumbre técnico e capitalista para operarem lideranças industriais. Na educação básica contemporânea, marcada por paradigmas tecnocientíficos globalizados, essa privatização da redução da margem de indeterminação tem contribuído para a expansão do poder tecnopolítico dessas corporações até a educação básica. Dentre seus efeitos, destaca-se a privatização da criatividade crítica dos estudantes, que tem como uma de suas características a naturalização de determinadas mercadorias tecnológicas e suas corporações desenvolvedoras como pontos de passagem obrigatória para a existência humana, cidadã e no mundo do trabalho. Essa naturalização carrega, também, dois traços importantes de destaque: coloniais, em razão dessas corporações e seus paradigmas tecno-educacionais serem majoritariamente do Norte Global; e neoliberais, notáveis nos discursos sobre humanidade, cidadania e trabalho. Em síntese, pretende-se contribuir para uma leitura do capitalismo de plataformas e da educação básica em globalização, a partir do conceito de margem de indeterminação de Simondon.
Sylvio Gadelha (UFC)
Uma psicossociologia em meio à contracultura e à tecnocultura
O historiador e romancista norte-americano Theodore Roszak, a quem se atribui a criação do termo contracultura (numa obra escrita originalmente em 1969 — Making of a Counter Culture —, publicada no Brasil em 1972, com o título A Contracultura), argumentava, então, que os jovens rebeldes dos anos iconoclastas que marcaram a passagem entre os anos 1960 e 1970, para além de um combate ao capitalismo, tinham como motor principal de sua indignação, rebeldia e suas sublevações, um questionamento e um combate vivo ao que consideravam uma tecnocracia, correlata tanto desse modo de produção econômico quanto da sociedade industrial que ele engendrou. Charles Wright Mills, Norman Brown, e Herbert Marcuse constituíam alguns de seus intercessores privilegiados. A tecnocracia acena, dentre outras coisas, com um hiperdimensionamento de uma razão técnico-científica, a qual, por seu turno, padroniza e enrijece de forma desmesurada os mais diversos e heteróclitos fluxos sociais e produtivos, concorrendo assim para a homogeneização ideológica das sociedades ocidentais e, em decorrência, para a produção de subjetividades serializadas, empobrecidas, alienadas, tornadas, enfim, unidimensionais. Nessa perspectiva, a tecnocracia não só amplia, mas também complexifica as relações entre os humanos e os objetos técnicos, desafiando-nos os a problematizá-las num approach psicossociológico. Trata-se, pois, de experimentar contribuir a essa problematização, tecendo algumas considerações sobre em que medida e, em que termos, a psicossociologia simondoniana nos ajuda a lidar com uma série de dilemas e ambiguidades aí implicadas, o que, inclusive, talvez nos ajude a estimar tanto sua potência como suas eventuais limitações.
Thiago Novaes (Mapp/UFC)
Plantas Maestras: criando a tecnicidade e a sacralidade através dos objetos abertos simondonianos
Partimos do questionamento sobre a relação que se estabelece entre o ser humano e as plantas maestras no seio do vegetalismo peruano, valendo-nos do arcabouço conceitual de Gilbert Simondon. Interessa-nos desenvolver criticamente um contraste entre o que se configura como uma abordagem científica tipicamente ocidental e a prática ritual, milenar, xamânica. Do ponto de vista científico, a planta mestra é frequentemente tratada como um objeto fechado: sua tecnicidade se reduz à substancialização química de seus componentes, visando um controle e testes sobre sua eficácia isolada. A planta se torna, assim, um “objeto técnico abstrato”, desprovido de sua “plurivocidade e plurifuncionalidade” espiritual, sendo alienada de seu meio associado cultural e ecológico original. A ciência busca descobrir a planta por meio de uma “gênese do objeto de uso” valorizando uma funcionalidade extrativista, em detrimento da “conaturalidade funcional primitiva” da relação. A prática xamânica, curandeira, aborda a planta como um objeto aberto, um “ente” com o qual se mantém um constante diálogo. A tecnicidade da planta é então percebida em sua totalidade, abarcando seu poder transformador e sua inserção numa vasta rede de relações espirituais e comunitárias, seu verdadeiro meio associado. Práticas como a purga e a dieta não figuram então como meros preparativos físicos; elas fomentam uma “pregnância” (Prägung), uma imersão que permite ao praticante formar uma “unidade dinâmica situacional” com a planta. A sacralidade da planta se mostra intrínseca, não um mero “véu” cultural, a essência mesma de sua capacidade de “abertura, expansão e desenvolvimento”. A pesquisa, resultante do trabalho de campo junto a um Centro Vegetalista em Areal, no Rio de Janeiro, argumenta que o contraste dessas perspectivas proporciona uma compreensão não apenas da existência de diferentes mundos, mas, desde uma perspectiva epistemológica e ética, permite revelar uma crítica em relação à apropriação científica voltada para a produção de remédios a partir da extração de substâncias dessas plantas. A proposta é apontar que a relação estabelecida pelo vegetalismo combate a alienação escravocrata presente no mero uso de objetos e substâncias, construindo ao mesmo tempo a possibilidade de uma sacralidade, de uma axiontologia, levando a sério a criação de uma tecnicidade aberta com as plantas mestras.
Thiago Ranniery (UFRJ)
Toxinas pervertidas: os dilemas sexuais do Plasticoceno
No contexto das questões levantadas pelos estudos de gênero e sexualidade sobre a relação entre sexo, ciências e tecnologias, este breve ensaio experimenta desenvolver uma abordagem queer dos perturbadores endócrinos a partir de linhas de força da filosofia de Gilbert Simondon. Inspirado por essas criaturas ultraqueers, apresento elementos ainda iniciais para uma abordagem da sexualidade no Plasticoceno, concebida, agora, como um processo tanto de individuação quanto de relação entre seres vivos e ressituo as compreensões da relação entre sexo, técnica e poluição. Ao sustentar o argumento da queeridade dessas substâncias, o presente trabalho objetiva suspender o lugar negativo que das ciências biológicas ocupa na complexidade da temática da construção das identidades de gênero e sexual, bem como espera apontar para arranjos singulares responsáveis pela constituição do sexo — processos de individuação relacionados às formas de desejo e aos modos de afecção.
Valeria Campos Salvaterra (PUC-Valparaiso)
Simondon transcendental
Tentaremos argumentar que, no nível do método, a filosofia de Simondon é uma ontologia possível apenas como idealismo realista, o que implica sustentar um nível transcendental de fundamentação que regule e legitime todo o discurso sobre — incluído aqui o acesso — ao sentido do ser. Essa transcendentalidade não é a de umas estruturas — formais — de um sujeito, nem tampouco a de uma correlação entre pensamento e ser. Trata-se, ao contrário, do que Hyppolite chamou, referindo-se a Husserl e Fichte em 1956, um campo transcendental sem sujeito. Retomamos esse legado de Hyppolite, contudo, na leitura específica de Derrida: o campo transcendental sem sujeito é um campo em relação ao qual todo sujeito se desatualizou, isto é, um campo que não depende nem se sustenta pela presença efetiva de qualquer sujeito. Trata-se de um campo no qual o ser está constantemente se determinando, inscrevendo-se em uma diferença ou, como diz Simondon, diferenciando-se. Ainda assim, em Simondon, esse campo não é estritamente ontológico, mas rigorosa e primordialmente técnico, ou seja, tanto operacional e informacional.
Vinícius Portella (Rio de Janeiro)
Transdução e influência
Associado muitas vezes à matriz romântica da arte moderna, o conceito de influência ainda é bastante usado de maneira informal na crítica e na teoria de arte, ainda que geralmente de maneira pouco sistemática. Podemos dizer que a influência segue fazendo parte do vernáculo da crítica mesmo sem um fundo teórico fortemente determinado (mesmo a teoria mais notória do conceito na segunda metade do século XX, de Harold Bloom, é muito mais referida de maneira imprecisa do que efetivamente aplicada na minúcia de seus revisionary ratios).
Esta comunicação pretende argumentar que o conceito de “transdução”— tanto seus usos em diversos vocabulários técnico-científicos quanto seu sentido específico na filosofia de Gilbert Simondon — oferece base robusta para as discussões de transmissão e transformação formal nas artes em geral, podendo servir de base para uma versão mais materialmente sofisticada — menos romântica e individualista, mais inumana — da ideia de influência). Neste sentido, pretende-se discutir a ideia de transdução como transmissão transformadora de um dinamismo de conjunto em meios e domínios diferentes, em particular destacando três sentidos, distintos mas associados, em que este processo pode se dar.
Em primeiro lugar, a transdução aparece como transmissão iterativa de uma matriz formal em domínios e meios diferentes. Em segundo lugar, a transdução se dá como irradiação de um germe cristalino num meio saturado de tensão e potencial Em terceiro lugar, a transdução produz a conversão de um tipo de energia em outra.
Zeto Borquez (U. Adolfo Ibáñez)
Simondon: tempo técnico e primitivismo estratégico
Em seu curso Psicossociologia da Tecnicidade (1960-1961), Simondon propõe uma reflexão sobre a dimensão temporal e histórica dos objetos técnicos: como realidades históricas, contêm uma informação implícita que expressa a aceitação ou rejeição de certas formas de ser. Portanto, não devem ser compreendidos apenas como realidades objetivas, mas também como formas de inserção do passado no presente. Embora neste curso Simondon aborde o significado cultural da tecnologia — incluindo fenômenos de simbolismo social —, é possível aprofundar o problema da temporalidade de maneira mais radical, considerando o fenômeno do “defasagem temporal” entre cultura e técnica, em que as transformações técnicas podem ultrapassar a capacidade dos esquemas sociais de assimilá-las. Em contextos de mudança acelerada, isso gera uma tendência ao arcaísmo cultural, que implica abandonar a técnica a forças exteriores e à desordem. Esta apresentação examina esse problema projetando as considerações de Simondon em uma troca de ideias entre Yuk Hui e Eduardo Viveiros de Castro sobre um “primitivismo estratégico”, levantando questões como a viabilidade de retornar a “ontologias indígenas”, a necessidade de repensar a relação entre natureza e tecnologia e a possibilidade de imaginar “outros começos” em um mundo de condições globais desiguais. A questão central é: o que implicaria um “primitivismo” se o domínio técnico for considerado insuperável?