Simondon num santuário na Lua

No texto “Arquivar a vida na era do colapso” (Piauí 05/01/2026), o antropólogo brasileiro Guilherme Fagundes evocou Simondon em sua reflexão sobre o projeto Sanctuary on the Moon, descrito como “uma iniciativa científico-artística internacional, patrocinado pelo presidente francês Emmanuel Macron, com apoio da Nasa e da Unesco, que pretende depositar na Lua um arquivo analógico composto por 24 discos de safira, cada um dedicado a um grande eixo do conhecimento, tais como tempo, vida, água, matéria e sociedade”. Segundo Fagundes, tal arquivo inlcuirá “desde imagens visíveis a olho nu até diagramas do tamanho de grãos de poeira”, sendo que o “formato consiste menos em uma mensagem digital e mais de uma biblioteca analógica a ser enterrada na Lua, distante de algoritmos, incêndios e obsolescência programada que nos afligem”, “uma arca sem a promessa da salvação”, um “arquivo sem leitor garantido”, um “gesto de patrimonialização para um futuro desconhecido”. Fagundes evocou Simondon quando considerou que o arquivo “não se contenta em traduzir a Terra, mas ambiciona transduzir suas heterogeneidades, suas zonas de atrito, seus contrastes, suas ontologias díspares”. Ele explica: “Enquanto a tradução supõe a passagem de um mesmo conteúdo estável entre códigos já dados (por exemplo, de uma língua a outra), a transdução, em sentido empregado pelo filósofo francês Gilbert Simondon, é uma operação que acompanha a própria gênese dos objetos e dos problemas, transformando ao mesmo tempo forma e matéria. Colocada nestes termos, a inscrição dos discos do Sanctuary não apenas converte mensagens humanas para outro suporte, mas faz com que elas se re-individuem na safira e no ambiente lunar, como parte de um processo aberto de produção de vida mais-que-terrestre.”

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